Bertolt e ela
de José Geraldo Demezio
Vinho bom. Tem mais?
Quê que cês querem saber?
Fui lá. Eu tinha que achar um meio de me aproximar dela. Quando eu soube, então, que vocês tinham conseguido o contato! Quase que fiquei maluco.
Finalmente, ela vai botar pra fora o que eu preciso!
Doideira!
Té que ela não tem um jeito muito do jeito que eu tava pensando; vai ser difícil; mas eu tô disposto a tirar de dentro dela... cada palavra, verbo... Putz, que loucura! É quase um gozo.
Só que não tem essa de sair contando. Troco por vinho. Vocês são malandros. Não têm manha e ficam aí tentando tirar caldo das minhas experiências extrasensoriais.
Vou contar pra vocês.
Todo mundo doido pra saber.
Já tinha um tempo que eu não andava por aquelas bandas. Da última vez que a gente se encontrou foi em Berlim. Até que ela tá bonitinha. Com uma estrela pintada no canto do olho. Lábio grande, olho de gato. Perigosa. Vive dizendo pra todo mundo que é burra de escrever; não sabe botar as ideias no papel. Isso me excita porque eu vou poder fazer ela vomitar de dentro dela cada pensamento.
Mas, vamos lá.
A pressão é pra saber como vai ser. Tranqüilo.
Doce? Não tem seco? Tá. Vai essa mesmo. Enche mais. Até a boca. Isso.
Vamos lá.
Tem charuto?
Hoje é o primeiro dia. Joguei uma pedra no ouvido dela pra botar um vestido curto, preto. Causar um frisson no prof.
Quer ver? Desce o telão.
Que horas tem? Tá saindo de casa agora.
Bonitinha tá saindo de casa. Olha só como é que ela anda sacudindo a bunda pra todo mundo prestar atenção. Bonitinha tá querendo atenção. Atenção! Tensão. Primeiro dia de aula. Nem sabe muito bem por que tá indo praquele lugar. Foi na onda de uns amigos. Bonitinha não tem muita personalidade. É garota que fecha a boca e entrega o corpo. Isso é bem bonitinho de se ver. Tem sido cada vez mais comum com meninas dessa idade. E bonitinha sabe disso.
Olha lá; acabou de entrar no ônibus. Sabia. Sentou na frente do trocador pra poder mirar as calças dele. Acho maneira a cara de tarada que ela faz. Bonitinha tem um quê de tarada, ninfomaníaca.
Coloca a mão dentro da bolsa pra tirar o batom, olha pra janela, vê o cara passando pelo outro da rua. Olha de novo pras calças do trocador, passa batom, olha pra rua, calça do trocador, último retoque, rua, trocador, calça, lábios, rua, rua, rua, rua...
Respiração profunda.
Cansei de ser assim; às custas dos outros. Eles não me entendem. Ai de mim.
Viagem longa. Não acaba.
Última curva.
Presta atenção na calça do trocador. Já tá toda amassada de tanto esfregar as mãos pra cima e pra baixo, pra cima e pra baixo.
Mas, e ela?
Ah, sim; ela.
Levanta que vai passar do ponto. Olha o ponto. Levanta sua burra! Será que eu tenho que ficar sempre te chamando a atenção? Quando é que você vai aprender a andar sozinha, hein?!
Por pouco.
Tem que atravessar a passarela. A passarela! Ali. Olha o carro!
Você é assim? Você é assim? Assim.
Atordoada atravessando a grande ponte. Dentes mordendo os lábios. Bolsa apertada contra o peito. Hora de chegar.
Lisa. Dramaturgia. Laboratório. Jô. Lisa.
Olha o vento batendo nela. Dá pra pôr em câmera lenta? Tem música?
Lindo!
Posso entrar na cabeça dela?
Lisa, eu tô aqui. Você não tá sozinha. Esquece que é burrinha. Levanta a cabeça. Sorri pro vento... pro céu... Sorri pra dentro de você. Se sinta.
É ali a porta.
Lisa, a bonitinha, passa pela porta de vidro. Bonitinha, a Lisa, apresenta-se e sobe pelo elevador. 4º andar. Porta se abre. Olá. Seja bem vinda. Seu nome? Lisa. Não sei escrever muito bem. Mas acho que vocês podem me ajudar. Que você possa ser iluminada no seu propósito.
Eu me chamo Jô.
Olha só o cara! Cheio de manha pra cima da menina.
Ei, eu é que tomo conta dela. Já tô nessa onda há anos entende. Apesar dela ser meio burrinha, ela é importante pra mim. Pra mim.
Ela pegou um papel. Ela pegou um papel. Acho que é agora. Escreve o meu nome.
Bertolt.
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